Por: Mariana Riquetto
“Ler e escrever não são suficientes para perfilar a plenitude da cidadania” (Paulo Freire)
De acordo com o site Wikipedia, a Educação de Jovens e Adultos se define: “modalidade
de ensino da rede escolar pública brasileira e adotada por algumas
redes particulares que recebe os jovens e adultos que não completaram os
anos da educação básica
em idade apropriada por qualquer motivo”. Qual pedagogia dá sentido a
esta “modalidade” de ensino? É apenas este o significado da EJA?
A
escola, que por fatores sociais e históricos, é caracterizada por uma
pedagogia de opressão, deve-se fazer construtora, através de uma práxis
libertadora, onde docentes junto aos educandos, se sintam partícipes em
transformar esta realidade, pois “é impossível a educação sem que o educando se eduque a si mesmo no próprio processo da sua libertação”.( Paulo Freire)
Deste
modo, torna-se possível que mudem-se os caminhos anteriormente
percorridos pela escola, pela avaliação das anteriores práticas e
problematização do futuro. “A desproblematização do futuro numa
compreensão mecanicista da História, de direita ou de esquerda, leva
necessariamente à morte ou à negação autoritária do sonho, da utopia, da
esperança” (Freire, 1996:81).
A
educação em seu sentido mais pleno é ética, sendo esta comprometida com
a vida humana, com os direitos das pessoas, à sua dignidade, esperança,
etc.
Tal
ética é inseparável da prática cotidiana dos sujeitos, é o meio que se
utiliza para auxiliar o oprimido na sua conscientização por meio de uma
consciência critica, tornando o processo educativo uma prática para a
liberdade.
Com base na informações acima, segue entrevista com Riani Rodrigues Teixeira - funcionária UMESP/ Aluna da EJA - 6° ano (Ensino Fundamental):
M -Como você tomou essa decisão, de voltar a estudar?
R- “
A Metodista prefere que todo mundo termine os estudos, e como eu tinha
para há muito tempo, estou com 42 anos e tinha parada com 15, ai eu
resolvi voltar.”
M- E como são os conteúdos da EJA?
R-
“ Os professores passam[os conteúdos] de uma maneira fácil, explicam,
mas o que eu vejo é que o pessoal tem muita dificuldade, acho que pelo
tempo que ficaram fora da escol. Eles têm dificuldade de ler e escrever,
porque o brasileiro não têm o hábito de ler. Eu fiquei muito anos sem
estudar, mas eu amo ler. Inclusive, a gente fez um trabalho, mas eu tive
que apresentar sozinha, porque leram e a professora disse que não
estava entendendo nada e pediu para que eu lesse. Eu vejo dificuldade
nas pessoas, e não nos professores – eles são pacientes, explicam tudo
direitinho. Têm matemática, geografia, português, história, inglês,
ciências, arte, tem tudo.”
M- E os professores deixa espaço para os alunos para o aluno para participar e perguntar, caso haja duvida?
R-
Deixa, explica, inclusive semana passada a profª falou que ia fazer um
ditado para ver onde esta a dificuldade do pessoal para dar aula de
reforço. Depois ela vai trazer a resposta, para o pessoal que não esta
conseguindo: deixa de colocar o "L", troca o "M"...
M- E você já alfabetizada, não é?
R- Já, eu aprendi a ler com 7 anos, porque queria ler os gibis. Já entrei na escola sabendo ler.
M- E têm alguém da sua sala que não é alfabetizado?
R-
Sim. Teve até um dia que peguei na mão de um homem para ensinar a letra
"A", os "as" dele pareciam o "9". Eles têm muito dificuldade. São
pessoas mais velhas, de 50 e poucos.
M- E onde você têm aula, fica perto da sua casa?
R-
Fica sim, fica a uns 15 minutos. Mas das outras pessoas não. Elas têm
um cartão que a prefeitura dá, e eles ganham a passagem.
M- E você encontrou muitas dificuldades? Sabemos que não é fácil a rotina! Como é a sua?
R-
Minha rotina é levantar ás 4:30 da manhã, ir trabalhar, chego ás 16:30,
arrumo a casa, faço janta, tomo banho e vou pra lá...e assim sempre.
M- É bem cansativo não é?
R- É sim, mas esta valendo a pena!
M- Vale a pena então?
R-
Sim, vale a pena! Lá também têm lanche pra quem quer, mas não gosto de
jantars, então... Levam a gente no teatro, esses dias teve um orquestra
lá, muito lindo! Acho que a prefeitura se empenha bastante, pra EJA ter
um bom resultado.
M- E você pretende fazer alguma coisa depois que concluir a EJA? Como uma granduação, técnico, etc?
R- No momento estou muito cansada (risadas). Mas quando terminar o 3º ano...quero fazer um curso técnico.
M- E você me disse que tem uma filha...
R-
Sim, ela é muito inteligente. Esses dias ela foi pra Curitiba, porque
ganhou as Olimpíadas Brasileira de Língua Portuguesa, ganhou um
computador do Diário do Grande ABC, e agora ela acabou de passar numa
prova para ela trabalhar na escola que ela estuda, no laboratório.
Desta
forma, “deve ficar claro que a EJA engloba muito além que as questões
educacionais, ela engloba a vida em sociedade e devem ser levadas em
conta as questões biopsicossociais e as intempéries socioeconômicas,
políticas e a diversidade cultural que rodeia cada vida, que luta a cada
dia, em busca de dignidade e justiça. Acreditamos que deve haver mais
divulgação desse trabalho para que a EJA não seja vista mais como sendo a
educação dos fracassados, mas sim a educação dos corajosos que mesmo na
dificuldade estão aqui, lutando” e acreditando no mundo e em si mesmos.
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