sexta-feira, 4 de novembro de 2011

ENTREVISTA

                        O sentido da plena educação
 Por: Mariana Riquetto
 “Ler e escrever não são suficientes para perfilar a plenitude da cidadania” (Paulo Freire)
            De acordo com o site Wikipedia, a Educação de Jovens e Adultos se define: modalidade de ensino da rede escolar pública brasileira e adotada por algumas redes particulares que recebe os jovens e adultos que não completaram os anos da educação básica em idade apropriada por qualquer motivo”. Qual pedagogia dá sentido a esta “modalidade” de ensino? É apenas este o significado da EJA?
A escola, que por fatores sociais e históricos, é caracterizada por uma pedagogia de opressão, deve-se fazer construtora, através de uma práxis libertadora, onde docentes junto aos educandos, se sintam partícipes em transformar esta realidade, pois “é impossível a educação sem que o educando se eduque a si mesmo no próprio processo da sua libertação”.( Paulo Freire)
Deste modo, torna-se possível que mudem-se os caminhos anteriormente percorridos pela escola, pela avaliação das anteriores práticas e problematização do futuro. “A desproblematização do futuro numa compreensão mecanicista da História, de direita ou de esquerda, leva necessariamente à morte ou à negação autoritária do sonho, da utopia, da esperança” (Freire, 1996:81).
A educação em seu sentido mais pleno é ética, sendo esta comprometida com a vida humana, com os direitos das pessoas, à sua dignidade, esperança, etc.
Tal ética é inseparável da prática cotidiana dos sujeitos, é o meio que se utiliza para auxiliar o oprimido na sua conscientização por meio de uma consciência critica, tornando o processo educativo uma prática para a liberdade.
Com base na informações acima, segue entrevista com Riani Rodrigues Teixeira - funcionária UMESP/ Aluna da EJA - 6° ano (Ensino Fundamental):
M -Como você tomou essa decisão, de voltar a estudar?
R- “ A Metodista prefere que todo mundo termine os estudos, e como eu tinha para há muito tempo, estou com 42 anos e tinha parada com 15, ai eu resolvi voltar.”
M- E como são os conteúdos da EJA?
R- “ Os professores passam[os conteúdos] de uma maneira fácil, explicam, mas o que eu vejo é que o pessoal tem muita dificuldade, acho que pelo tempo que ficaram fora da escol. Eles têm dificuldade de ler e escrever, porque o brasileiro não têm o hábito de ler. Eu fiquei muito anos sem estudar, mas eu amo ler. Inclusive, a gente fez um trabalho, mas eu tive que apresentar sozinha, porque leram e a professora disse que não estava entendendo nada e pediu para que eu lesse. Eu vejo dificuldade nas pessoas, e não nos professores – eles são pacientes, explicam tudo direitinho. Têm matemática, geografia, português, história, inglês, ciências, arte, tem tudo.”
M- E os professores deixa espaço para os alunos para o aluno para participar e perguntar, caso haja duvida?
R- Deixa, explica, inclusive semana passada a profª falou que ia fazer um ditado para ver onde esta a dificuldade do pessoal para dar aula de reforço. Depois ela vai trazer a resposta, para o pessoal que não esta conseguindo: deixa de colocar o "L", troca o "M"...
M- E você já alfabetizada, não é?
R- Já, eu aprendi a ler com 7 anos, porque queria ler os gibis. Já entrei na escola sabendo ler.
M- E têm alguém da sua sala que não é alfabetizado?
R- Sim. Teve até um dia que peguei na mão de um homem para ensinar a letra "A", os "as" dele pareciam o "9". Eles têm muito dificuldade. São pessoas mais velhas, de 50 e poucos.
M- E onde você têm aula, fica perto da sua casa?
R- Fica sim, fica a uns 15 minutos. Mas das outras pessoas não. Elas têm um cartão que a prefeitura dá, e eles ganham a passagem.
M- E você encontrou muitas dificuldades? Sabemos que não é fácil a rotina! Como é a sua?
R- Minha rotina é levantar ás 4:30 da manhã, ir trabalhar, chego ás 16:30, arrumo a casa, faço janta, tomo banho e vou pra lá...e assim sempre.
M- É bem cansativo não é?
R- É sim, mas esta valendo a pena!
M- Vale a pena então?
R- Sim, vale a pena! Lá também têm lanche pra quem quer, mas não gosto de jantars, então... Levam a gente no teatro, esses dias teve um orquestra lá, muito lindo! Acho que a prefeitura se empenha bastante, pra EJA ter um bom resultado.
M- E você pretende fazer alguma coisa depois que concluir a EJA? Como uma granduação, técnico, etc?
R- No momento estou muito cansada (risadas). Mas quando terminar o 3º ano...quero fazer um curso técnico.
M- E você me disse que tem uma filha...
R- Sim, ela é muito inteligente. Esses dias ela foi pra Curitiba, porque ganhou as Olimpíadas Brasileira de Língua Portuguesa, ganhou um computador do Diário do Grande ABC, e agora ela acabou de passar numa prova para ela trabalhar na escola que ela estuda, no laboratório.
Desta forma, “deve ficar claro que a EJA engloba muito além que as questões educacionais, ela engloba a vida em sociedade e devem ser levadas em conta as questões biopsicossociais e as intempéries socioeconômicas, políticas e a diversidade cultural que rodeia cada vida, que luta a cada dia, em busca de dignidade e justiça. Acreditamos que deve haver mais divulgação desse trabalho para que a EJA não seja vista mais como sendo a educação dos fracassados, mas sim a educação dos corajosos que mesmo na dificuldade estão aqui, lutando” e acreditando no mundo e em si mesmos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário